BELO HORIZONTE – Um crime de extrema brutalidade chocou a Região Centro-Sul de Belo Horizonte. O assassinato do advogado Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e de sua esposa, a empresária Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76 anos, revelou um rastro de premeditação, frieza e distúrbios por parte da diarista Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos.
Para entender a dinâmica do duplo latrocínio (roubo seguido de morte), a reportagem reconstruiu os fatos em estrita ordem cronológica, com base nos depoimentos, laudos periciais e investigações da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG).
Os Antecedentes: O primeiro golpe em um bar e a indicação para o emprego
Antes mesmo de pisar no apartamento de luxo do casal no bairro São Pedro, Paola já havia colocado em prática uma tática criminosa semelhante. Em meados de junho, ela assistiu a um jogo de futebol em um bar com um homem. Após o homem ir ao banheiro, ele começou a passar mal. Paola instruiu e insistiu em levá-lo para casa e, posteriormente, a vítima deu falta de cerca de R$ 800.
Sem desconfiar da mulher na época, este homem — que era primo de Maria Clotilde — indicou Paola para trabalhar como diarista na casa de seus parentes. Mal sabia ele que a indicação selaria o destino trágico do casal de idosos.
Segunda-feira (29 de Junho): O crime, o surto e a execução a facadas
Na manhã de segunda-feira, Paola chegou pela primeira vez ao apartamento das vítimas carregando apenas uma bolsa pequena. Conforme relatou mais tarde à polícia, ela ficou “encantada” com o padrão do imóvel e, ao perceber joias, dinheiro e relógios de luxo no quarto durante a limpeza, decidiu cometer o furto. Ela alegou que não saiu de casa com a intenção de matar.
O plano para dopar: Para facilitar o roubo, Paola preparou um suco no liquidificador e misturou clonazepam — um calmante de tarja preta de uso controlado que ela utilizava para depressão. A polícia apreendeu cerca de 50 comprimidos em seus pertences, indicando que a ação foi premeditada.
O ataque brutal: Cerca de 40 minutos após ingerirem a bebida, os idosos adormeceram. No entanto, enquanto recolhia os objetos de valor, Cláudio despertou e percebeu o furto. Paola foi até a cozinha, pegou uma faca e o atacou. O advogado tentou reagir, mas foi golpeado 17 vezes pela agressora. Em seguida, Maria Clotilde, ainda sonolenta devido ao forte efeito sedativo, foi assassinada na cama com 7 facadas. Em depoimento, Paola afirmou que ouvia “vozes” e que agiu em meio a um “surto psicótico”.
A limpeza e a fuga: Após constatar as mortes, a diarista lavou a faca usada no crime, limpou-se e trocou de roupa — vestindo peças que pertenciam à própria idosa assassinada. À tarde, câmeras de segurança a flagraram deixando o condomínio com roupas diferentes e duas sacolas cheias.
A rota de fuga e venda dos bens: Ela abordou um motorista de aplicativo na rua, pagou R$ 40 e seguiu para a região da Praça Sete, no Centro de BH. Ali, ela vendeu os relógios e joias (com valores informados em depoimentos variando entre R$ 3,3 mil a R$ 59 mil). No total, o roubo envolveu cerca de R$ 18 mil e bens de luxo. Em seguida, fez as malas e avisou a família que iria viajar com o filho.
Terça-feira (30 de Junho): A descoberta macabra dos corpos
Os corpos de Cláudio e Maria Clotilde só foram encontrados na terça-feira pelo filho do casal, que foi até o apartamento. A Polícia Civil foi acionada imediatamente, isolou a área para perícia e começou a analisar as imagens das câmeras de segurança, identificando a diarista como a principal suspeita.
Quarta-feira (1º de Julho): O rastreamento e a caçada policial
Os investigadores da PCMG deram início a uma caçada. No decorrer do dia, conseguiram localizar e recuperar os celulares das vítimas na cidade de Vespasiano, na Grande BH. Dando continuidade ao rastreamento, por volta das 20h30, as equipes receberam a confirmação de que Paola havia fugido para o interior do estado e estava hospedada em um hotel.
Quinta-feira (2 de Julho): Prisão em hotel e confissão chocante
Na madrugada de quinta-feira, os policiais civis localizaram Paola no It Itabira Hotel, na Região Central de Minas Gerais. Ela foi encontrada na cama, abraçada ao seu filho de 6 anos. Chorando e muito abalada, a diarista afirmou que já esperava ser presa devido à intensa repercussão do caso na televisão e que sentia vergonha.
Em coletiva de imprensa realizada na manhã de quinta, o delegado Gustavo Barletta revelou que a mulher confessou o duplo homicídio e alegou motivação financeira. Viciada em jogos de azar (bets), compradora compulsiva e acumuladora de roupas, ela afirmou que já havia quitado uma dívida de R$ 40 mil com agiotas em Ribeirão das Neves, mas queria mais dinheiro para “curtir a vida”. O delegado destacou que a investigada demonstrou forte instabilidade emocional e falas desconexas, pedindo perdão às famílias.
Em nota, a defesa de Paola limitou-se a dizer que os argumentos técnicos serão apresentados no momento oportuno do processo, pedindo que não haja julgamentos antecipados por parte da opinião pública.
Sexta-feira (3 de Julho): Laudos periciais e identificação do motorista
Na manhã desta sexta-feira, as investigações avançaram com dados técnicos cruciais. O exame toxicológico da perícia oficial confirmou a presença de clonazepam no sangue do casal de idosos. A investigação trabalha com a certeza de que a quantidade usada por Paola foi muito superior aos quatro comprimidos informados por ela em depoimento, justamente para anular qualquer chance de defesa das vítimas.
Além disso, a Polícia Civil confirmou que identificou a placa e o proprietário do veículo que levou Paola do condomínio até o Centro de BH após o crime. O motorista de aplicativo está sendo intimado a prestar esclarecimentos para confirmar se realizou apenas uma corrida comum de rua. A diarista segue presa e passará por audiência de custódia, onde a Justiça avaliará a conversão do flagrante em prisão preventiva.
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